mandinga

May 2, 2011

Cultura cultua sentidos… sobre gênero e poder

Filed under: ALEGORIAS MANIFESTANTES — mandinga @ 10:03 am

Tá vamos falar de gênero… ah ! mais uma vez ? Oh Yeah ! Leio o mundo nesta perspectiva… e agora já era ! Essa deixa inicial é pra satisfazer a banda de gente que me xaropa por conta deu ser … feminista ! (depois farei um post exclusivo sobre a patrulha). Bora lá nesse:

Tava em Sampa no trânsito, som do carro começa a passar uma propaganda da SPM sobre as possibilidades das mulheres. Sem imagem, a narrativa em áudio da peça publicitária foi nocaute. Parecia que estava vivendo no cobiçado tempo da igualdade de gênero neste país. A chamada passava algo de: “parabéns mulher, finalmente vc pode tudo”.

Precisamos reforçar nossa autoestima, mas sem maquiar realidades. Fui investigar e percebi que sim, tinha mesmo escutado a campanha e se tratava de uma iniciativa da SPM. E não só isso, compas feministas me enviavam o vídeo como uma conquista. Logo manifestei meus poréns sobre a peça e minhas compas tinham leituras distintas das minhas. Então, me predispus a fuçar melhor minhas angústias, do quanto aquilo me parecia ” o caô no baile” do momento.

Ganhamos possibilidade de algumas mulheres estarem no poder – inclusive como presidenta – isso visibiliza possíveis. Mas, não revela sobre circunstâncias de como chegamos a estes espaços – consentidos ou conquistados ? E nas ruas, praças, esquinas, bares, noites quantas conseguem caminhar livremente ? São tantas variáveis desta chegada ao poder… Em nossos imaginários o que construímos com estas imagens ? Bom, espaços que foram construídos por regras e rédeas do patriarcado, agora conduzidos por mulheres. Muitas vezes, ocupados por mulheres que não têm compromisso efetivo com questões de gênero. Mas, que usufruem de conquistas de tantas que há séculos lutam pelos feminismos.

Devemos e precisamos como “base social” colaborar na formulação de políticas públicas, especialmente as voltadas para gênero. Assim como, pretendemos ver o orçamento para políticas públicas de gênero crescer e sua execução ser garantida. Mas será que podemos ? Afinal, o que podemos ? Penso em dois casos recentes de mulheres que ganharam a esfera pública uma como candidata ao governo do DF. Usada pelo marido, que teve a candidatura impugnada. Devido a seu despreparo foi chacoteada pela mídia e redes sociais. Pra mim, um dos casos de violência simbólica mais gritantes dos últimos tempos. Outro exemplo, é a primeira Ministra a ocupar a pasta da Cultura. Explicitamente despreparada para o cargo, segue entre atropelos no Poder. Penso em tantas mulheres que poderiam contribuir com a Ministra. Mas, que mesmo tendo mulheres em sua assessoria segue vacilando. Dai, reforço que deveríamos mesmo começar a pleitear que nossas representantes no poder estejam compromissadas com os movimentos e redes de mulheres.

Por que topamos ser fantoches de um jogo que não precisamos jogar ? E o quanto o fato de ser uma MULHER faz a chacota render mais ainda? E até que ponto ao despreparo fica atrelado a suposta incapacidade de gerir ? Gostaria de reforçar para todas que ocupam cargos de poder neste país, que podemos mudar as regras e o jogo. Sequer jogá-lo. E mais ainda que estamos em solidariedade mútua e que podemos ajudar técnica, psíquica e emocionalmente.

Percebo que gestoras comprometidas com questão de gênero, exercem melhor suas funções no poder público. Vamos celebrar nosso protagonismo, autonomia, liberdades. E junto a isso escrever novas regras ao jogo… queria escutar mais e melhor sobre desenvolvimentismo. Queria conhecer mais economistas feministas. Queria uma internet feita por mulheres. E sem que pra isso tivéssemos que nos desemponderar. Conheço várias mulheres que exercem cargos de liderança e que precisam de vez em quando pedir desculpas por isso. Ou seja, pedir desculpas por ser boa. Ou sabotar algum outro aspecto da vida por ser boa e poderosa. E muitas vezes além dela mesma se sabotar, outras variáveis vão atuar para expor suas vulnerabilidades. Precisamos de mulheres nas esferas de poder, mas precisamos também reconstruir as regras.

E a todo momento questionar PODER: indagar, examinar, experimentar e teorizar. Especialmente, quando é forçoso servi -lo. E quando necessário servi-lo, buscar valores solidários. Seria nossa cultura de Poder… Precisamos recriar o Poder como forma de libertação, de uma, de todas.

… tentando desembuchar sobre governanças…. pelas passadas, presentes e futuras !

5 Comments »

  1. Pinkolas Estes n.01:

    Embora o isolamento não seja algo que se deseje por ser divertido, provêm dele um ganho inesperado. As dádivas do isolamento são inúmeras. Ele elimina a fraqueza com os golpes. Ele erradica as lamentações, proporciona um insight penetrante, aguça a intuição, assegura o poder incisivo de observação e de visão de perspectiva jamais alcançados pelas pessoas “aceitas”.

    Comment by mandinga — May 2, 2011 @ 10:06 am

  2. Pinkolas Estes n.02:

    desejo intenso por uma cultura que combine com essa natureza. Esse anseio, esse desejo já faz a pessoa prosseguir. Ele faz com que a mulher continue a procurar. E, se não consegue encontrar a cultura que a estimule, geralmente ela resolve criar, ela mesma, essa cultura. Isso é bom, pois, se ela a criar, outras que vinham procurando há muito tempo chegar o misteriosamente um dia, proclamando com entusiasmo o fato de estarem procurando por ela o tempo todo.

    Comment by mandinga — May 2, 2011 @ 10:09 am

  3. Resistência = torna-se forte, robusta ! (by jul)

    Comment by mandinga — May 2, 2011 @ 10:11 am

  4. Perfeito post. O início de uma conversa dolorida, na minha opinião. Entre os homens observa-se coesão, a afamada “brodagem”. Existem códigos secretos e inconscientes que os tornam mais ligados que nós, mulheres. Sei lá se a sobrevivência biológica ou o que, de algum modo permitimos que nossa irmandade se reduzisse a calcinhas e esmaltes… e de repente assuntos sérios são pra duas ou três mulheres só, porque mais do que isso corremos risco.

    Não sei onde nos perdemos como irmãs, mas isso nos deixou nua frente ao poder deles. Seria bom que nossos laços (selvagens, como diz a Ju) pudessem ser maiores do que bolsas da Gucci ou Prada. E sempre mais fortes do que belos de olhos conquistadores…

    Comment by yaso — May 2, 2011 @ 4:07 pm

  5. bonito demais ver que o discurso apaixonado e inflamado de um tempo se transforma em argumentação articulada e inteligente. sem mais reprodução, transformação do pensamento sempre.

    Comment by mari — May 3, 2011 @ 3:41 am

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