mandinga

December 20, 2012

Obvianas… ou dialética etílica panfletária

Filed under: ALEGORIAS MANIFESTANTES — mandinga @ 9:38 am


Tenho uma amiga negra. Bebemos, comemos e falamos palavrão. Somos balzacas, bondosas, generosas,bonitas, sábias, trabalhadoras, espiritualizadas, engraçadas. Em espaços públicos somos abordadas, em nossa hora feliz. Chamo de hora feliz, pois é justamente com esta amiga que tenho a qualidade de compor… os melhores insights e as melhores gargalhadas. Planejamos e celebramos nossas atitudes. Hoje filosofamos sobre ansiedades, sobre nossos relacionamentos, sobre a morte (sim, minha amiga ficou viúva recentemente), filmes, discos, receitas, filhos, homeopatia… estávamos quase finalizando nosso momento… quando de repente, mais uma vez, a fatídica abordagem…

Bom, sempre começa com um papo trivial. Daí, num pulo segue para algo agressivo, sobre a luta das mulheres e/ou negritude. Dai, somos impedidas de contra argumentar, porque a pessoa que nos aborda não deixa que sequer possamos falar. Ela fala em voz alta, sem nenhuma trégua. E pra provar o quanto é bem mais inteligente do que nós, rola uma afirmação sobre fatos históricos e personalidades deste mundão… Pronto, interromperam nosso rango, nosso drink, nosso clima. Ficamos mudas, respondendo apenas com a cabeça, com bicos, olhares, caretas…

Até que minha amiga se exalta… e mais uma vez, lá vamos nós… afirmar que não comemos criancinhas, que não temos ódio de homens, de brancos. Lá vamos nós… pra mais uma discussão. Lembrando que, a proporção de tempo de fala é bastante desigual entre as partes. A esta altura já estamos revisitando nossa real, nossas raízes, nossas cicatrizes. Minha amiga reivindica no berro a chance de responder as acusações, elocubrações e construções … Escrevo porque esta cena (mais uma vez acabou de acontecer) e nesta noite foi nesse momento, nesse exato momento, depois de uma jornada árdua de trabalho, que olhei pra minha amiga, linda, corajosa, exausta… e tive uma enorme vontade de abraça -la e pedir desculpas. Porque já não podemos sequer jantar em público, sem a patrulha…

Me questiono se a abordagem é proposital. Porém, fato é que ao termos mais consciência, conquistas, escolhas e valores sobre a sociedade que precisamos, devemos, queremos, podemos e merecemos viver e construir – somos ainda mais catucadas, sondadas… E este sempre alerta cansa. E, às vezes, pira… noutras, condiciona. Penso que se fossemos uma instituição seríamos ao menos remuneradas… mas não (ou #soquenao, para tempos modernos) ! Investimos nosso tempo, conhecimento, talento… pra nos livrarmos. Queria ter uma bomba de fumaça ninja, nestes momentos… Recentemente, ficamos mais em casa, e revisitando este tipo de situação acho que é pra evitar a perturbação.

Sei que vamos pro desenrolar dos fatos. E pedagogicamente vamos afirmando, visibilizando, reforçando quem somos e porque lutamos. Panfletárias… talvez. Só que bastante certas da nossa força. A palavra, nosso poder. E bom, em nossas experiências vividas somos da geração que aprovou as cotas na UnB, montou rádios livres, plantou a permacultura, o passe livre, a marcha das vadias, cineclubes, audiovisual popular, bicicletadas, defendemos território indígena, quilombolas, políticas de saúde mais decentes… só pra citar o que plantamos e colhemos. Pra reforçar que existem muitas lutas, pra além do que publicam nos jornais. E nesse momento quero abraçar minha amiga por termos sobrevivido e mais ainda conseguirmos estender a mão, o coração e o ventre…

Dai que já estamos em um nível da tal conversa em que conseguimos falar. E sermos ouvidas. E conseguimos mostrar que as micropolíticas existem, horizontalidade, autonomia, autogestão estão vivas e cada vez mais fortes. E não estamos falando de simulacros de redes – que na verdade, surgiram usurpando mentes e corações, para manter a ordem vigente. Necas ! Falamos de algo orgânico, coletivo, pulsante que vivemos e somos. E esta força é imortal. Adiante, já conseguimos ficar mais a vontade. Sim… nossa cumplicidade é também nossa ação afirmativa. Estendemos mais um bocado a conversa. E nossas companhias, neste ponto sentem um tipo de encantamento. Parece que buscavam por nossas histórias e por nossas verdades há tempos. Me questiono aqui se esta busca tem que sempre ser tosca, mas … fato é que desmontamos o ataque.

E bom plantamos mais idéias, ganhamos mais amigos. E, acaba que transcendemos as provocações… e conseguimos voltar ao diálogo e quem sabe rende uma hora feliz, numa outra hora qualquer… sim, isso já aconteceu com alguns “abordadores”. E agora quero abraçar minha amiga por ser presente, paciente, prudente, posicionada. Quero abraçar mais ainda pela força do que tem que acontecer, por estar nas ruas, nos bares, pronta e sagaz pra qualquer investida que insista em deturpar quem somos e o que podemos ser. Quero abraçar minha amiga porque sua alma e imaginário trabalham sempre curando, porque é disciplinada a favor da vida das mulheres, da população negra…

Quero te abraçar Sabrina, porque você faz com que nosso território esteja protegido, encantado e fértil… por cuidar de mim e por cuidar da gente. #venceremos

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